quinta-feira, 10 de junho de 2010

Senhor, senhora, senhorita

Como quem tem amigo não morre pagão, atazanei o juizo das minhas amigas alemãs mais chegadas pra me ajudarem a escrever as centenas de declinações dativas, acusativas e etc do meu currículo e carta de apresentação. Porque escrever pra mim é o mais difícil em alemão. Falar sempre é mais fácil, numa conversa se você se refere a den ou dem não faz muita diferença pro ouvinte, mas escrito fica feio, ainda mais numa situação de pedinte "Eu só quero um lugar ao sol, eu não tô roubando, não tô matando, mas acertar essa P$%&* de declinação só na próxima encarnação, se Deus for muito sacana e me fizer nascer nessa terra de salame com batata".

Uma coisa que eu acho um porre aqui é o excesso de formalidade, aliás acho que os alemães têm essa fama de serem frios por causa disso. Ninguém dá um peido sem comunicar antes, durante ou depois por escrito, tipo "Caro Senhor Doutor, venho por meio desta comunicar que estarei nos próximos minutos exalando agentes poluidores que podem vir a lhe incomodar. Desde já agradeço a compreensão. Com os votos mais cordiais, Frau Batatinha Com Salame." Tudo tem que ser assim, mesmo que você já tenha falado ao telefone, trocado dez e-mails, nunca se chega a um tratamento por "você". E como eu passei os dois últimos anos na Escócia, onde o povo só não é mais dado porque tem aquele vento todo na cara que deixa eles meio atordoados, eu estava acostumada a chamar todo mundo de "you" e escrever meus e-mails de contato com "Dear Fulana", já chamando pelo primeiro nome, sem essa prosopopéia toda de título e sobrenome.

Sabe aquela tensão de ter que escrever o tratamento certo quando se refere a um juíz? Excelentíssimo, ilustríssimo, sei lá o quê? Aqui se você for escrever uma carta pro padeiro  tem que ter cuidado com como escreve senão nem sei o que pode acontecer, talvez o sujeito fique tão melindrado que nunca mais queira te vender um pão.

2 comentários:

Marcita.blogspot.com disse...

Isso é mesmo um stress. No meu curso de alemão eles ensinavam praticamente só o tratamento formal. Resultado: cheguei na Alemanha em 1996 tratando minhas amigas, com 18 anos de idade, por Sie. Elas diziam que era para tratar por Du, mas quem disse que eu conseguia? Foi um custo!
E no trabalho eu andei um tempo me correspondendo só com os EUA, então o povo escrevia já "Dear Marcia" . Estranhei muuuuuito no início porque os clientes alemães colocam todos os títulos, mesmo num e-mail, um saco. Hoje eu estranho ter que escrever quase uma linha só para dizer: Senhor Fulano de Tal.

Anônimo disse...

Caraca! Deu uma vaciilada e chamei o chefe do Gastarztvertrag de "du" e pelo primeiro nome: ainda bem que ele não ficou furioso comigo :)).