sexta-feira, 29 de abril de 2011

Escolhas e assuntos que não se discutem

Eu pensei muito se iria escrever esse post, porque hoje em dia, com o adendo da anonimidade e da proximidade virtual quase que real da internet, muita gente se acha no direito de sair colocando dedo em riste na cara dos outros e patrulhando comportamentos. Hoje, pra mim, assuntos como amamentação e tipos/escolhas de parto entram no quesito futebol, religião e política, que não se discutem, porque parece que o povo é tomado de tamanha irracionalidade se o outro pensa diferente que chega à beira do inimaginável a troca de ofensas que já li por aí. Se você não parir de cócoras e amamentar até a criança entrar na pré-escola, sabe-se Deus o marginal que irá pra sociedade no futuro. Perdoem-me o exagero.

Dito isso, repito, pensei muito se iria escrever sobre o assunto, mas cheguei a conclusão que, apesar de não estar disposta a explicar por a+b o porquê das minhas opiniões e nem muito menos em tempo algum achar que tenho que justificar minhas escolhas, é bom também alguém contar outro tipo de experiência e porque não de aprendizado, que se serviu pra mim, poderá servir pra outro que venha a ler isso aqui.

Parto na Alemanha é a priori normal. Se o bebê está na posição e a gravidez transcorreu sem problemas que indiquem qualquer intervenção, segue-se o curso natural das coisas, 40 semanas +2 até se pensar em porque a criaturinha não quer sair de lá por vontade própria. Recursos como anestesia, parto na banheira, massagens podem ser acordados durante a entrevista no hospital que a pessoa escolher. Cesarianas são feitas, mais uma vez a priori, se o bebê não está na posição correta ou por alguma outra indicação médica.

Seria o mundo perfeito, certo? Foi o que pensei da primeira vez também. Eu queria um parto normal, fiz acupuntura, curso de gestantes, hidroginástica e o escambau, me preparei como pude. Só não contava com a inflexibilidade patológica alemã, onde depois de 24 horas de trabalho de parto, uma anestesia que já tinha ido pro espaço, gente subindo em cima de mim pra empurrar a criança, bebê em sofrimento, batimentos caindo e deixarem chegar a um ponto da situação onde até uma cesariana de emergência não era mais possível e o bebê ter que ser extraído à vácuo. No final, nos salvamos, mas o processo todo foi bem fora da normalidade na minha opinião. E vejam bem, eu nunca me iludi que seria um parto indolor e fácil, mas jamais imaginei que estaria nas mãos de profissionais incapazes de julgar o limite do risco. É aquela história, você não sabe que tipo de parideira você é, tem gente que suspira e a criança nasce, outras não, e você espera que o carinha que estudou anos de medicina seja capaz de julgar a hora em que passou do limite e tá na hora de usar seu conhecimento.

Só que mães, principalmente as de primeira viagem são mais crentes e esperançosas, tem aquela ingenuidade utópica de que tudo vai dar certo e eu era assim. E quando a ficha caiu, já era tarde demais, eu estava na mão deles e não tinha mais como pegar as rédeas da coisa.

É estranho o número desconcertante de cesarianas planejadas no Brasil, também considero isso fora da normalidade. Faz-se por comodismo e por conta da manipulação da máfia dos planos de saúde, somado à indisponibilidade médica. Mas também acho desconcertante a falta de sensibilidade alemã para compreender que nem sempre as coisas fluem como esperado e é preciso ter um plano B. Vejam bem, eles me disseram que tinham um plano B, que se desse algum problema, fariam uma intervenção, só que pra eles aqui procedimentos como extrair um bebê à vácuo ou puncionar gotas de sangue da cabeça do bebê no canal de parto são plenamente normais e fazem parte do processo. Pra mim não era e continua não sendo, porque o risco destes é muito maior e permanente do que o risco de uma cesariana necessária.

Riscos existem sempre, em qualquer tipo de escolha. É preciso estar ciente dos dois lados da moeda e saber que se o bonde pegar outro trilho você conhece o caminho também. Imprevistos sempre hão/podem acontecer, mas a gente espera que não.

Quis o destino que eu viesse a me encontrar novamente parideira em terras germânicas, novamente em Hamburgo, e agora, Juvenal? Tomei minha decisão conscientemente e bati o pé bem firme pra ultrapassar a barreira da síndrome do jaleco-branco-engomado e seu ar de superioridade do qual sofrem todos os médicos alemães e fiz valer minha vontade. Este post foi escrito antes, porque a essa hora provavelmente estou me recuperando de uma bem sucedida e planejada cesariana com uma linda bebezinha ao meu lado.

10 comentários:

Marcita disse...

Toma! To-to-toma!!!!
Eu optei pela cesariana porque sabia que o meu babysauro viria bem grande.
Agora vamos falar de... MAMADEIRAS! hahahahahahahahah

}¡{ disse...

@marcita HAHAHAHA assim vc choca a sociedade!

No George, bem, vc sabe, até cagar dentro ele cagou tadinho. E tentaram tb tirar sangue da cabeça dele, enqto ainda boiando em excremento.
Graças a todos os deuses, veio a cesária.

Aqui ó, mais importante que toda essa politicagem sobre amamentação, parto e maternidade é a mãe estar sã emocional/psicologicamente pra poder dar a criança o q ela precisa. Sem pressão, sem crendice ou especulação do que é melhor.
Cada um faz o que acha ser melhor e paga com a conciência.

Muita saúde pra todos vcs <3

Eliana disse...

Ohh achei muito realístico o seu post e sábio. Você ouviu a voz da experiência e tomou todas as providências e precauções de forma consciente. Que bom que você pode fazer isso e que desta vez tudo correu dentro de uma normalidade e que ninguém sofreu. Final feliz!

Anônimo disse...

Ma eu esperava esse post, bem, na verdade eu queria perguntar, masssss preferi esperar kkk.
Eu sou contra cesária, por ser vítima da estatística de cesárianas por comodidade médica e foi uma recuperação péssima daquelas boas pra fazer chorar o pior dos machos.
Daí que entendo a sua opção, é uma das piores sacanagens estar nas mãos de médicos incompetentes justo nessa hora, é um susto pra sempre.

Minha 2o cirurgia foi por intervenção (exigência) médica tmbm com muita discussão, termos de responsabilidade e 13h de TP, mas a recuperação foi linda. Com direito a ola pra os "remedinhos" daqui, menina que drogas potentes são essas? kkkk E dessa eu não me arrependi por ser necessária.

De todos modos eu continuo sendo contra, tenho seguelas físicas (e não estou falando da cicatriz) e todo um conteúdo de informação e vivência que não dá pra ser diferente.

Banalização é outra história, médico que não te dá opção é outra coisa, medos infundados e falta de informação como dizer que esse é o melhor parto é outra história e isso sim temos que discutir até que se prove o contrário.. Coisas que não tem nada a ver com saúde da mulher e sim com a prepotência médica e suas empresas hospitalares que pelo que vejo é uma posição universal. Discordo completamente que se torne assunto tabu por ser uma maneira de perpetuar os abusos.

Bjs querida espero que sua recuperação seja ótima, que emagreça rápido e que tenha muito leite com uma bb saudável e muito paparicada.

sempretempo disse...

Marcela,
eu realmente adorei o post.

Pq tenho certeza q mesmo sendo contra a banalização, vc jamais desrespeitaria uma mulher por fazer a tal "programação". Vc tem a sua opinião, mas respeita a alheia.

E de fato é isso q falta ao mundo… respeitar a posição dos outros! Mesmo quando ela não agrada, ou incomoda. A barriga , o "canal de passagem" (heheheh) e o bebê são da mãe, ela tem q ter a liberdade de escolha.

Então, o q te desejo é muuuuita felicidade com suas filhotas, a tranquilidade da sua escolha sendo respeitada, e calma pra responder aos mal educados de plantão!

bjs

Line disse...

Eu ainda não pari, mas ACHO que eu também preferiria um parto normal. Digo normal normal, respeitando os limites do bem estar da mãe e do bebê, e não um parto normal forçado, cheio de intervenções e de traumas - isso sem contar nos riscos.

Acho que eu no seu lugar teria um trauma muito grande, e tomaria a mesma decisão que vc tomou. Acho que as questões relacionadas ao parto na Alemanha são bem parecidas com as questões aqui na Holanda.

Uma amiga ficou dias em trabalho de parto aqui, perdeu muito sangue e logo depois do parto disse que não estava se sentindo muito bem, mas a parteira disse que era só cansaço. Ela foi tomar banho e caiu desmaiada no banheiro, teve que tomar várias bolsas de sangue.

Eu acho o seguinte: nem oito nem oitenta, mas saí do Brasil que era o 8 - mania de médico, de intervenção de cirurgia; e caí no 80 da Holanda - mania de achar que tudo é natural e que o corpo é capaz de resolver tudo por si só.
Aqui só se faz preventivo depois dos 30 anos, a cada 5 anos, ou seja, se vc tem inúmeros casos de câncer na família (como eu tenho),tem que rezar pra estar bem nesses 5 anos sem checar, ou então gastar dinheiro e dias de férias fazendo check ups no Brasil, como eu fiz desta vez. Um absurdo pagar 120 euros de plano de saúde todo mês, e ter que pagar do próprio bolso quando realmente precisar.

Enfim, espero que sua cesária tenha corrido bem, e que seu bebe já esteja nos seus braços!

Mi disse...

escolhi minha ginecologista aqui em Munique pq ela atende numa clinica que é especializada em cesareas. Nao pq queira fazer uma cesarea de qq jeito, mas sim pq sei que caso precise de uma, ela vai ser bem feita e nao vao esperar horas e horas ate que isso aconteca. =) Sei la, sou controladora e quero que de uma maneira ou de outra, tudo funcione. bjs!

Daniela Santos-Hansen disse...

Ma imagino o seu medo e entendo (além de concordar) com a sua decisão de fazer uma cesárea dessa vez. Para que arriscar né? Povo mais louco, eu heim!

Eu quero ter outro bebê, em breve vamos providenciar, mas eu me cago de medo qdo penso no parto. Aqui na Noruega tb é nesse esquema, parto normal. Eu só não sei se eles demorariam tanto assim para fazer uma cesárea.

Marido diz que se eu tiver algum problema eles fazem, mas nesse caso ele não poderá ficar comigo na sala de parto. Enfim.. vou me preocupar mesmo qdo engravidar, mas é algo que eu penso sim. Quando o bebê nascer eu terei 40 anos... ai ai.

Margot Abirato disse...

OI Má, agora conta, qual foi o jeitinho ( ou a falta de ) que vc utilizou no processo de convencimento germânico? :o)
Adorei saber que Laurinha é daqueles bebês calminhos, que mamam e dormem, e são zen e só querem saber de alegria. Fofa! Beijocas pra vcs e muita, muita alegria pela frente!

Bea disse...

Puxa, q situação!! Acho q o q falta na Deutschland é a flexibilidade!! O q o brasileiro tem demais!! Digo isso pq meu marido é médico e foi convidado p/ trabalhar aqui!!
Uma vez meu filho rompeu os ligamentos do pé e no Pronto Socorro em Rissen(HH) o médico queria operar. Eu disse q ninguém encostava 1 dedo nele antes do meu marido chegar! Ligamos p/ os colegas ortopedista no Brasil e falaram p/ NÃO operar! Enfaixaram o pé dele, falaram p/ ir p/ casa e voltar 3 dias depois. Meu filho começou a reclamar de dor no 2º dia... tiramos a faixa e o pé estava AZUL!! Surtei!! Fomos p/ a UKE e lá ele foi atendido por ortopedista que resolveu o problema!!
Só o Senhor Deus p/ nos guardar e livrar de todos esses sustos!! Bj