Sigo meus dias entre perguntas de "Será que é cólica?""Será que o leite está satisfazendo?" "Será que o aparelho está incomodando muito?"Cocô tá verde... será porque?" E viva a amnésia pós-primeiro filho, porque se a gente lembrasse das noites mal dormidas e da odisséia dessas indagações infinitas dos primeiros meses, a raça humana já estaria extinta, tenho certeza absoluta.
Tudo bem que da segunda vez há um certo relaxamento, pelo menos a gente sabe que há uma luz no fim do túnel e um dia eles vão crescer, comer arroz e feijão sozinhos e o maior trabalho ligado às necessidades fisiológicas será correr pro banheiro depois de um "Manheeeê, cabei!" Mas que esse início é exaustivo, isso é.
Eu já sou meio cabeça de vento, com sono então, é quase um crime deixarem duas crianças sob minha responsabilidade. Hoje fui comprar uma toalha de mesa e na hora de pagar entreguei o cartão de outra loja. A vendedora me alertou e na hora em que olhei na carteira, não achei meu cartão de débito no lugar de sempre. Céus, devo ter esquecido na loja de ontem. Pânico, comecei a procurar por todo lado, quando resolvi prestar atenção ao que a vendedora tentava me avisar "O cartão está na sua outra mão". Heim? Não assimilei a informação e continuei procurando até ela repetir de novo e eu perceber que estava segurando ele entre os dedos o tempo todo.
Laura chora, chora e chora tanto, às vezes (quase sempre que está acordada), que chego a ficar zonza. Aí, a Julia resolve que vai cantar pra acalmar a irmã e eu fico ali no meio tentando pensar em como as avestruzes se reproduzem pra não enlouquecer com tanto barulho. Em outras horas, quando sua paciência esgotou, ela solta um "Halt die Klappe! "
(Cala a boca!) pra bebê. Pequenas amostras do amor singelo entre irmãs. Mas dou um desconto, porque se a minha sanidade já está no ponto limítrofe, já agradeço o fato dela não ter tentado afogar a caçula na banheira.
Ontem, ao lhe responder que não poderia ir a uma atividade da escola, tive que ouvir a resposta "Mas porque? Você não faz nada, só fica em casa". Taí, se tem uma coisa que me tira do prumo é isso. Ela tem 5 anos e onde foi que aprendeu que só tem valor o trabalho de quem sai de casa? Porque eu tenho esse ranço, sofri e tenho ainda enorme dificuldade de aceitar e dar-me valor sem estar trabalhando fora. Odeio ouvir gente dizendo "Eu JAMAIS poderia ser uma mãe em tempo integral", como se isso fosse aniquilar toda a sua sapiência, mas trabalhar num lugar de 8h às 17h fazendo cópia de memorando pro chefe fosse lhe manter competente a manter conversas inteligentes. E aí, quando a minha filha vem e me fala isso, eu sofro sim, porque tenho medo que daqui a 10 ou 20 anos, ela me olhe e me ache um nada. Porque comer e ter roupa pra vestir limpinha no armário ninguém nota, são tarefas meio que subentendidas e ninguém se preocupa em como tudo sempre está funcionando, exceto quando a dona da casa falta por algum motivo. E olha, eu não estou falando isso por causa de depressão pós-parto não ( que não tenho, só estou ranzinza mesmo), isso é uma reflexão que volta e meia ronda meus pensamentos. Eu não parei de trabalhar pra ter filhos, mas aconteceu de eu não estar trabalhando fora quando as tive e optei sim por ser eu a ser a responsável pela educação da vida delas e não terceiros, porque pude e porque quis. Continuo mantendo meus interesses e planos pro futuro, mas me incomoda essa obrigação que pesa sobre meus ombros de ter que ser algo mais do que mãe e dona de casa pra poder ser dada ao valor. Parece um retrocesso pro movimento feminista que libertou a mulher do fogão pra ganhar os bancos das universidades, mas sinto que no meio desse caminho, algo se perdeu.
Aqui em casa quem resolve praticamente tudo sou eu, marido trabalha e tem salário, mas os pepinos e burocracias que mantém a família funcionando quem resolve sou eu, desde a geladeira que pifa até saber qual o limite pra entrega do imposto de renda. Sou eu quem marca as consultas, organiza as compras, faz listas, cozinha, lava, arruma a casa, leva criança pras dez atividades extracurriculares, procura apartamento pra mudar e ainda tenta achar tempo pra estudar e ver se consegue voltar a trabalhar um dia na minha área profissional aqui. Sem contar os bicos de tradução e revisão que me tiram do limbo e patrocinam meu ego pra eu não achar que sou SÓ dona de casa.
Como cansa querer e ter que ser tanta coisa. E mesmo que alguém diga que a gente é que se cobra tanto, não é. Eu me cobro porque o mundo cobra isso da gente e porque com 5 anos, de alguma forma, já está ali na cabecinha da minha filha, que a gente é aquilo que produz.
Como cansa.
4 comentários:
Puxa, vc escreveu muito bem. Tem uma piada que a mulher, dona de casa, cansada de ouvir do marido que ela não faz nada, realmente levou a coisa a sério. Em um dia, ela resolveu mesmo fazer NADA. Não arrumou a casa, não lavou, não fez compras, não cozinhou, não levou as crianças para a escola e nem saiu com o cachorro. Aí o marido chega e fica chocado com o cenário de caos da casa, da família...e pergunta o que tinha acontecido, onde estava o jantar, pq isso e pq aquilo... e ela responde, sábiamente:
Pois é, hoje eu fiz NADA!
Eu acho que o que a sua filha vier a pensar de você, tb vai depender de como vc mostra as coisas pra ela, no dia a dia em casa. Pois é, se vc achava cedo, pq ela só tem 5 aninhos, já viu que o buraco é mais embaixo e ela tem que saber então pq ela tem roupas limpas e comida quentinha e quando vem uma dor de barriga é a mamãe que está lá para segurar a barra! Com certeza, ela jamais duvidará daqui a 10, 20 anos que a mãe dela foi uma incrível mulher! Bjs
Ma, estava pensando em voce hoje cedo. Com toda essas noticias de contaminacao ai em Hamburg. Muito bom saber que voces estao bem apesar do cansaco. É realmente exaustivo e como vc disse só mesmo a amnesia pra fazer a gente ter coragem de enfrentar tudo de novo. E encarar dois filhos nao deve ser a tarefa mais facil do mundo. Só de pensar que em 2 ou 3 semanas vou ter que passar por isso, já me estresso um pouco. E como vc disse, tem gente que acha que mae e dona de casa nao tem valor ou vale menos por nao trabalhar fora. Quanto a Julia, ela ainda é muito nova e está passando uma fase dificil. Lidar com algumas "perdas", abrir mao de algumas atividades, dividir a atencao do papai e da mamae em funcao de uma outra irma, está mexendo com a cabecinha dela. Ela vivia no mundo perfeito, onde ela era o centro de tudo. Agora tá aprendendo a reconstruir tudo de novo. É normal descontar até no vento, quanto mais em voce, dizendo coisas que nem ela entende. Tenho certeza que ela sempre vai valorizar o cuidado que vc dedica a ela, já deu pra perceber que ela é uma menina esperta e carinhosa. Nao se estresse com isso agora e nem fique pensando muito nessas coisas nesse momento tao dificil que vc está passando. Escreva, chore, coloque pra fora, isso é bom. Mas, tente pensar que nesse momento cada gota d´agua parece uma tempestade. Queria poder dizer algo que amenizasse seu cansaco, mas infelizmente nao há o que dizer. A gente sabe que os dias passam, que tudo melhora, mas a verdade é que esse inicio é mesmo cansativo. Entao te desejo forca para passar por tudo isso, pois sei que é o que vou precisar daqui uns dias quando eu estiver no seu lugar.
Um grande beijo querida!
E eu q estou largando minha carreira aqui pra passar esses dois anos aí, pensando em ter nosso primeiro filho… chorei, chorei e chorei todos os meus medos lendo seu texto… como sempre, vc é tão acertiva no q escreve!!!!!
Estou um q de apavorada + assustada + ansiosa + feliz + preocupada….
Minha mãe me educou para ser profissional e independente financeiramente. E eu foi sempre. Ela estava certíssima, até que resolvi ter filho e lembrei de como é ruim cair e não ter quem levante, ou melhor não ter a mãe por estar ela trabalhando fora.
Aí mudei. E descobri que tinha talentos domésticos, eu organizo e cozinho bem demais sabe. Mas cadê dar valor a isso, quem já viu atividade doméstica depender de talento, né?
Então mudei de novo. Propaganda, muita propaganda.
As meninas ouvem e precisam ouvir como as coisas são organizadas, quem faz o quê e passei a demandar pra todos, já era pensar que o marido é consciente o suficiente pra lavar a louça se foi eu que fiz o jantar.
Tá todo mundo cansado, com sono bla, bla, bla, bla, só eu não? Oi?
Se foi eu que mimei todo mundo agora posso também inverter a situação, afinal o mundo pertence a mão que balança o berço, ou não?
É só uma questão de tempo, vc vai encontrar seu caminho do meio.
Agora, já tentou música?A minha já tinha uns 5meses, mas se vc precisa de idéias hoje tenta isso também.
Tanto choro pode facilitar uma hérnia então vale tentar tudo na minha opinião.
Bj
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