Cresci ouvindo histórias sobre minha tia, mãe de três meninos, que vejam só, irresponsável e desmiolada, como era denominada, esqueceu uma vez o caçula nas Lojas Americanas, que ficava ao lado da casa da minha avó. Voltou pra casa com a sensação de "ter esquecido alguma coisa", mas só se deu conta do que era quando tocaram a campainha e o vizinho trazia meu primo pela mão. Não, eu não esqueci ninguém em lugar nenhum, mas hoje simpatizo com minha tia e já nem acho ela tão desmiolada assim :).
Sábado à tarde, família vai às compras by car. Afivela o cinto numa, encaixa a cadeirinha da bebê, transpassa dez mil voltas do cinto testando suas habilidades psicomotoras ao mesmo tempo em que cantarola pra criança não chorar, pega os cascos das bebidas pra devolver no supermercado, canguru, água, brinquedinho, etc. etc. etc., quando estacionei na porta do mercado fui checar onde estavam as chaves de casa e não achei. Entra todo mundo de novo, acelera voltando o caminho todo rezando dez aves marias pra ninguém ter achado as chaves que ficaram penduradas do lado de fora da portaria.
E foi nessa hora, quando estacionei em frente ao prédio e vi meu chaveirinho pendurado lá balançando que lembrei da minha tia, porque hoje acho que ela era somente normal.
E nossas saídas recentemente automobilísticas têm sido assim, digamos, cheia de revelações sobre a personalidade dos integrantes da nossa família de quatro. Marido incorpora o chefe da família e do trânsito, vira a cabeça pra olhar toda vez que viro uma esquina pra certificar-se de que não vou atropelar nenhum ciclista ou pedestre desavisado de sua mulher ao volante, Laura já demonstrou que pertence mesmo ao proletariado e gosta mesmo é de um coletivo, porque é só sentar ela na cadeirinha que dez espinhos imaginários espetam sua bunda e ela chora da hora da partida até eu estacionar o carro. Julia, que estava inicialmente curtindo a ideia do conforto, já declarou que "não gosta de andar de carro" e eu sou solidária, porque é ela que fica no banco de trás com a irmã berrando a plenos pulmões, não deve ser lá muito relaxante o passeio. Eu... bom, eu adoro dirigir, mas nessas condições acima descritas, nem Buda conseguiria manter a calma e acabo discutindo com o marido que reclama porque não estacionei na porta de casa pra ele descarregar as compras naquela vaga em que só caberia um triciclo, reclamo com a Julia que não ajuda a distrair a irmã atrás e tento abstrair as engasgadas pra retomada de fôlego que a Laura dá antes de voltar a chorar.
Mas seguimos tentando manter o bom humor sem esganar nem esquecer filha nenhuma pra trás.
2 comentários:
Ri demais da sua saga. É mole não, da vontade de esquecer alguém no mercado.
Coitada da Julia ainda sobra pra ela a responsabilidade de calar a Laura hahaha.
Simpatizei também com sua tia.
bjs
HAHAHAHAHA minha cunhada já parou na estrada. Ela carregava meus dois sobrinhos pequenos ainda, meu irmão e a mãe dela que não se dão bem de jeito algum...o maior quebra pau dentro do carro, as crianças fartas mandando a avó e o pai pararem de bater boca...ela para o carro no meio do caminho e ameaça fazer descer os dois brigões ali e seguir sozinha com as crianças...adrenalina pura! Bom, pelo menos se calaram até a chegada! Loucura, loucura, loucura!
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