sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A dificuldade de se fazer amizades além da fronteira

Acho que um dos maiores problemas da gente quando se muda de país é encontrar novas amizades. Emprego também está no topo da lista, já que reconhecer diploma, lutar contra o preconceito e ainda disputar as vagas com os nativos é um caminho pedregoso e muitas vezes infrutífero apesar de todos os esforços. E a pessoa acaba frustrada e infeliz se não conseguir dar a volta no sistema ou achar um jeito de se reinventar.

Mas eu não quero hoje falar sobre esse ponto, quero focar no social, porque tenho lido em muitos blogs o povo reclamando que não consegue se integrar, que os nativos não dão abertura, que vivem numa bolha e aí vai chegando essa época escura e fria dessas bandas daí pra cair naquela tristeza aguda é um pulo.

Eu vou contar como foi a minha experiência, porque hoje tem um monte de gente que diz que pra mim é fácil porque falo alemão e conheço um monte de gente e acha que foi sempre assim. Mas não foi.

Eu ralei muito pra aprender bem essa língua arranhada que me dá tosse cada vez que vou ler um livro em voz alta pra Julia. Eu não aprendi sozinha, nem sem esforço, estudei, estudei, estudei até cair de podre. Eram 5 horas por dia no curso todo dia e mais um monte de horas em casa debruçada sobre os livros ou treinando os ouvidos com a televisão. Ou lendo um livro em alemão ( mesmo que fosse difícil) no metrô ou no ponto do ônibus. E isso, minha gente, é o primeiro passo pra gente conseguir quebrar o gelo desse povo. Aprender a falar BEM a língua deles. Porque eles se sentem superiores e te menosprezam se você gagueja ou demonstra insegurança. E não fazem a menor questão de te entenderem.

Nessa época eu tinha 3 amigas brasileiras e nenhuma amizade alemã, salvo os maridos delas que encontrava em ocasiões sociais. Foi durante a gravidez da Julia, depois de 3 anos de Alemanha, que conheci a K, hoje minha melhor amiga e madrinha da Laura, na hidroginástica para gestantes.E vejam a ironia, ela reclamava que não conseguia fazer amigas porque achava todo mundo muito nariz torcido. Até hoje ela às vezes escorrega num "Mas os estrangeiros..."quando vai reclamar de alguma coisa e acho que ela se esquece que sua melhor amiga veio d"além mar. É o hábito, não adianta a gente querer negar.

Com a Julia comecei a frequentar grupos de bebês, parquinhos, mas mesmo assim só a K de amiga. Mudei-me pra Escócia e chegando lá, de cara, comecei a frequentar vários Toddler's Groups e conheci muita gente. O povo era mais aberto, receptivo e tinha a vantagem de eu me sentir mais confiante no inglês que eu já sabia e era fluente. Além disso eu não era mais uma emigrante novata e já não tinha mais tanta vergonha de puxar assunto mesmo sem conhecer a pessoa. Foram dois anos muito bons e leves no sentido amizades. Dessa época fiz uma grande amiga brasileira e outras muitas outras nativas com quem mantenho contato até hoje.

Quis o destino que eu voltasse pra Alemanha e não foi sem pensar que eu ia ter que enfrentar de novo a solidão do bate papo entre amigas que voltei. Mas uma coisa mudou nessa volta, e foi a minha atitude com relação às nativas. Antes eu tinha vergonha de abrir a boca, de puxar assunto com elas no parquinho ou no grupo de bebês. Mesmo já falando o alemão eu me sentia travada e não rolava. Nesse retorno eu perdi completamente a vergonha e coloquei na cabeça que era eu que tinha que ir à luta. Ficar esperando que uma alemoa simpatize com você e te chame pra um cafezinho é melhor esperar sentada porque não vai acontecer. E já no primeiro mês em que a Julia entrou no Kindergarten, eu me enchi de coragem e chamei uma menina pra ir brincar lá em casa. Cheguei na mãe da garota e fiz como elas fazem. "A Julia quer MUITO que a fulaninha vá lá em casa brincar com ela, vamos combinar um dia?" E nem dei chance pra criatura pensar em qual era a minha nacionalidade, já saquei a agenda da bolsa e não dei chance para ela achar uma desculpa. Pronto. Depois disso, o resto foi fácil.

Dizem que criança ajuda mais a gente a fazer contato, mas isso só vai acontecer se você, a mãe, sair também da concha. Conheço brasileiras aqui, muitas, que continuam vivendo no gueto, ou seja, só se relacionam com brasileiras, mesmo já estando há anos aqui e seus filhos na escola. Assim como estrangeiras de outras nacionalidades também, a maioria turcas, africanas e outras que se fecham no seu círculo de segurança e têm medo de enfrentar a resistência das alemãs. Notem as nacionalidades que eu mencionei, porque existe sim preconceito contra essas, o que não acontece se for uma francesa, italiana, norueguesa, entendem? E nós brasileiras caímos no estereótipo sim.

Criança ajuda porque te faz uma ponte pra você chegar até o outro lado, mas você pode escolher não atravessar a ponte e continuar só com quem está do lado de cá.

Só posso dizer que por experiência própria, se você dá o primeiro passo, a coisa flui. E mesmo que a gente ainda esbarre em uma cara amarrada aqui e acolá, tem outras dez que serão receptivas.

10 comentários:

Line disse...

Adorei esse post!
Aqui também tenho muitas dificuldades, vou pra yoga, pro curso de holandês, tento em manter ativa socialmente, mas como vc disse, ainda me sinto "dentro da concha". Apesar de expor a figura em alguns eventos, sempre espero que alguém tome a iniciativa. Preciso pensar sobre isso, rs.

Quanto à língua, ainda continuo tentando, é difícil, não é impossível, mas a coisa ainda não flui, ainda sinto vergonha e insegurança quando converso em holandês.

Será que eu chego lá?

Beijos!

Maman B... et ses petites crapules disse...

Ma, este teu post, disse tudo! Participei do brecho da escola como voluntaria, ajudei 2 dias, fiquei quebrada e mesmo tentando e falando, as suiças nao me dirigiram uma so palavra. Agora toda semana espero minha filha terminar sua gym, pelo menos, mesmo que seja dificil, manterei presença. Resolvi me integrar, obrigada pelas dicas de sua experiencia.bjs Isabel.

Ma disse...

Chega sim, Line! Eu morriiia de vergonha, quem me vê hoje não acredita, porque puxo papo até com velhinho no ponto de ônibus, mas eu tb demorei muito pra perder a vergonha. Um dia fez um clique e eu parei de me importar se ia falar certo ou não e aí a coisa aconteceu. Eu cometo erros por mais que me esforce pra aceratr todas as declina'cões, obviamente, tenho sotaque ,mas aprendi que eles fazem parte do meu charme :) Bjs

Ma disse...

Isabel, é isso aí! Uma hora você vence a barreira delas. Tem que ser cara de pau mesmo! Boa sorte!

sou Bárbara disse...

o meu problema é que a minha cara é tao, ou mais amarrada que a da alemoada... hauhauhauhauha

Deby-abelha disse...

Eu acho que cada caso é um caso. Pq eu moro na Suécia a 4 anos, falo muito bem sueco, trabalho e falo apenas sueco no trabalho e em casa, meu marido é sueco e cheio de amigos, eu frequento a uma igreja, ia pra ginastica antes de ter filhos e não tenho amigos nem suecos e em brasileiros. Já cheguei a me perguntar várias vezes qual é o meu problema.
Pq sim, eu conheco outras mãe suecas, nós nos encontramos pelo menos 1 vez por semana, mas sinto que não há intimidade. Amizade pra mim não é apenas sair, tomar café, assistir um filme... É ter intimidade, é poder abrir o coracão...
Do mesmo jeito com as brasileiras... Puxa como eu tentei, mas só eu tentava, só eu convidava pra minha casa, pra jantares e do outro lado só promessas... Ah! Na próxima vez eu ligo, hein? Ou... Vamos fazer um churrasco na minha casa e nunca acontecia!
Não, não... Eu acho que tentei e te digo, ainda não desistir. Essa semana mesmo convidei uma mãe do grupo de natacão do Noah pra vir aqui na minha casa. Quem sabe?
Definitivamente, eu acho que fiz tudo, tudinho... Tenho companhia, pessoas que säo até razoavelmente agradaveis de conversar, mas não somos amigas. A cultura é muito diferente, elas desaprovam a rotina que o Noah tem ou a maneira que eu educo, pq simplesmente säo outros costumes e não condeno. É assim...
Bom saber que muitas tem oportunidades de terem amigas em outro país e esse post definitivamente serviu de reflexão!

Beijos

Ma disse...

Babi,

Aí fica difícil, né! Eu sou o contrário, saio rindo até pra sombra e às vezes me sinto meio palhaça quando a pessoa não corresponde e eu fico lá com cara de pastel :)

Deby,

Menina, que coisa! Vamos analisar seu caso, senta no divã. O que eu relatei no post acho que é o problema de 10 entre 10 expatriadas, mas se vc já fez o seu dever de casa como disse, realmente é um caso a se pensar. Eu entendi o que vc quis dizer, tem várias conhecidas, mas ninguém mais amiga. Pra te ser sincera eu também tenho muitas conhecidas, mas amigas conto em uma mão, tanto brasileiras como alemãs. Aliás amiga alemã só a K, com quem eu me abro mesmo e é pra quem eu ligo pra chorar no telefone quando a coisa aperta. Mas em termos de educação, nem com ela combinamos. Eu educo do meu jeito, um pouco do que sou, um pouco do que adquiri da cultura deles e achei bom. Nem sonho em discutir o assunto com as alemoas pq sempre discordamos. Vou escrever um dia um post sobre isso. Engraçado que lembrei de uma amiga sueca que tive na Escócia e que me dizia que não suportava as alemãs porque eram muito fechadas! Continue tentando! Bjs

Eve disse...

É assim mesmo. E acho que quando a gente toma a iniciativa até a conversa flui melhor, eles se interessam, fazem perguntas. Acho legal isso. No meu caso, eu "herdei" os amigos de marido, mas agora estou fazendo os meus. Saber falar alemão bem (nao necessariamente fluente, pq o meu ta longe disso. hehehe) ajuda. :) Bj!

Eliana disse...

Pois é, penso que quando a gente aprende a "enrolar"a língua, a gente ganha sim um certo respeito. Analiso pela própria vizinhança, porque se encontro converso e até participo das fofocas rs... Mas aquela coisa, amizade de rolar aquela reciprocidade, cumplicidade, não rola, não dá liga. O que acaba acontecendo é a lei da afinidade porque me junto mais com as outras estrangeiras que tb buscaram, até mais do que eu, contato com os nativos e se frustraram de alguma forma com eles. Bom, pra começo de conversa eles são esquisitos até entre eles mesmos, quem dirá conosco que somos diferentes pela própria natureza hahahah Hoje, eu não ligo mais. Às vezes, até com a família não bate, falta algo por mais legal que seja a relação. O nosso vizinho de porta sempre chamando pra gente aparecer...a mulher dele não olha na nossa cara...eu não me sinto nem um pouco à vontade. E outro dia, ele aprontou uma confusão, a tropa de elite baixou aqui no prédio e levou o nosso vizinho pra uma noite de reflexão no xilindró! Aí é que eu desisti mesmo...já pensou se ele encontra comigo e resolve me fazer de refém, pela política da boa vizinhança???? hahaha Meeeeda! rs

Anônimo disse...

Ola Ma,

Como vai?
Tmb sou Ma, de Marianna, nao ma de maldosa, rs...

Moro aqui no Allgau ha 01 ano e concordo com o que vc postou e comentários das outras expatriadas tmb...
Tenho um filhote de 2 anos e 4 meses, frequentamos parquinhos, Spielgruppen, aulas de musica, esporte, ou seja, estamos totalmente fora da concha...Apesar de eu apreciar o jeito mais reservado, acreditando que a cumplicidade e intimidade vem com o tempo, conversamos com todo mundo, maes e crianças, Alemoas ou nao...
Meu marido e Alemão e meu pequeno herdou a simpatia dos Brasileiros, o que torna a adaptação mais fácil :-)
Apesar de todas essas relações, nao posso dizer que somos amigos, mas contatos mais superficiais, nos quais trocamos figurinhas sobre a rotina e desenvolvimento infantil e alguns interesses em relação a nossa Cultura Brasileira :-)
Tive a sorte de herdar alguns amigos do marido, pena que moram ha 2 horas daqui, nos vemos pouco, entretanto os nossos encontros esporádicos sao bem bacanas!
Conheci uma Brasileira muito legal, ela ficou 1 ano aqui em Wangen e retornou para o Brasil, pois so veio para trabalhar como Au Pair, uma graça de pessoa, e diferente termos amizades com Brasileiras, e outra coisa falar a mesma língua, em todos os sentidos...
Nao falo Alemão muito bem ainda, mas me esforço para ser clara e gosto muito da cultura Germânica, portanto, vamos continuar como estamos ate encontrarmos pessoas legais com que possamos nos identificar :-) De preferencia, bem-humoradas, o coisa difícil por aqui, rs...

Vamos colorir esse inverno com o nosso verde-amarelo meninas!

LG aus Wangen