Quinta-feira de manhã, em casa, todas oficialmente remelentas. A Laura um pouco menos, a Julia um pouco mais e por isso não foi a escola e eu, bem, eu já mandei dois comprimidos pra dentro porque não dá pra ficar de frescura.
E enquanto a classe média brasileira se descabela porque não vai mais ter como sustentar a sua companheira inseparável de todas as horas, eu sigo na minha jornada múltipla de mulher trabalhadeira sim senhor. E ainda solteira, porque marido só volta no sábado, pontualmente para a Páscoa.
Eu acho engraçado o quanto este tema das empregadas gera discursos inflamadíssimos internet afora. Eu acho que a sociedade brasileira está ficando cada vez pior. A profissão de empregada doméstica, assistente do lar ou seja lá a denominação que se queira dar, por si só, já é uma aberração, já que teoricamente o trabalho doméstico nada mais é do que manter-se as necessidades básicas de sobrevivência do indivíduo que ali habita. Mas crescemos no modelo colonial e fomos acostumados a sair de casa para ganhar o dinheiro para pagar o sujeito que cuida da nossa casa. Por outro lado o Brasil é um país onde a desigualdade social e educacional é gritante e há uma parcela enorme da população que não aprende nada além de lavar-passar-cozinhar, que não requer diploma de nada e passa de mãe pra filho. Essas pessoas só sabem fazer isso, é um fato, não adianta vir me dizer que é porque não têm oportunidades, porque nasceram na pobreza, não tiveram chance, blá-blá-blá, bocejo para este tipo de comentários. Fato é que tem gente que não quer saber de estudar, que não quer ter trabalho de pensar, porque pensar dá trabalho, ter responsabilidades além do fogão, dá trabalho, e a maioria não quer é ter responsabilidades maiores. Faz ali o feijão com arroz do trabalho braçal e tá muito bom.
Desta forma por muito tempo, uma mão lavou a outra. A classe média que estudou e conseguiu os melhores empregos sai pra trabalhar fora e ganhar o dinheiro para pagar a classe imediatamente inferior que não estudou e achou no serviço doméstico uma brecha para também se estabelecer. Com o tempo, o serviço doméstico foi se diversificando em forma de babás, lavadeiras, passadeiras, diaristas, etc. e os patrões foram se acostumando a terem suas funções domésticas e agora até familiares, terceirizadas. Virou uma bola de neve.
Mas não há como negar que ninguém, a não ser o Eike Batista, vai ter como manter esses padrões no futuro e apesar de muitos estarem comemorando a conquista dos direitos trabalhistas das empregadas domésticas, acho que o que vai acontecer é que vai aumentar o número de desempregadas e o que, aqui na Alemanha, chamam de "schwarzarbeit", que é aquele empregado que trabalha por fora, "no preto" (nem me venham com história de preconceito, é a tradução literal da palavra, entenda-se como quiser), sem carteira assinada, sem direito nenhum, ganha pela hora do serviço e pronto. Se é certo ou não, não é minha intenção julgar, apenas constatar o fato de que o que parece uma vitória pelos direitos conquistados, pode na verdade ser uma grande pegadinha.
E engana-se quem acha que não existe este tipo de trabalho doméstico na Europa, existe sim, a diferença é que ou você contrata uma firma especializada, por exemplo, quer limpar os vidros das janelas, chama o carinha que fez curso de limpador de vidros, ou você contrata uma brasileira-peruana-polaca-ucraniana e paga por hora 10 Euros pra ela fazer o serviço de limpeza da casa, como eu já disse, "no preto" e fica tudo combinado assim. Paga-se caro e por isso quase todo mundo se vira como pode mesmo, e deixa a bola de natal embaixo do sofá com aquele cutão de poeira por mais de três meses e ninguém morre por isso. A diferença é que quem trabalha fora, tem mais cutão embaixo do sofá do que está trabalhando em casa como eu.
5 comentários:
Tá mesmo o maior bla bla bla no rádio, sindicato de empregadores e todo um fuá. Concordo com o que vc disse, aliás sabia reflexão. A coisa de empregada doméstica é cultural. (Fim da escravatura, o jeito foi mudar o nome e dar um dinheirinho no fim do mês) E só ver o esquema das empregadas domésticas nas novelas, cara! Surreal...hahaha E vamos combinar que tem gente que se acha superior por ter empregada e pensa que a mão cai se pegar numa vassoura. Eu acho que tudo isso é bonito no papel, porque vai é piorar e a solução é ficar "no preto", dando-se aquele jeitinho brasileiro entre patrões e empregadas.
Concordo com vc, a coisa vai ficar feia. Trabalhar por fora aqui não vai dar certo. Elas aceitam e depois vão pra justiça do trabalho e o empregador sempre perde e paga uma grana.
Vai ter muita gente sem emprego e vai demorar pra evoluir essa situação.
O negócio é complicado e vai gerar muito tititi. Vamos aguardar o que vem pelo futuro.
bjs
Lá no Brasil não dá pra rolar "no preto". A diferença é que no Brasil mesmo que as empregadas aceitem trabalhar sem carteira e coisa e tal, no momento em que ela for demitida, ela pode pedir os "direitos" dela. A empregada não é punida por trabalhar ilegal. Só os patrões são punidos. Aqui na Alemanha, se entendi bem, ambos são punidos e pagam multas pro governo, como se ambos fossem cúmplices no crime. No Brasil, o empregado é sempre um coitadinho explorado pelo patrão burguês-capitalista-selvagem, mesmo que ele tenha tirado vantagem da situação.
Resumindo, o patrão que tiver um trabalhador ilegal no Brasil vai se ferrar. Quanto mais tempo a pessoa trabalhar pra ele nessas condições pior será, porque as multas, além das indenizações, aumentam com o tempo.
Olha o maridão aí no blog! É isso mesmo. Mas eu também sou contra totalmente ao serviço de qualquer tipo ilegal. O que eu acho é que as empregadas dome'sticas deveriam ser profissionais autônomas, sem esse negócio de carteira assinada. Eu sou autônoma, freelance. Pago meus impostos, mas não tenho direito a fundo de garantia, nem previdência, nem direito a férias. Tudo isso eu tenho que fazer como uma profissional prestadora de serviços e acho que as empregadas deveriam ser também assim e pronto, tudo na legalidade, mas sem ficar este absurdo de querer que uma família vire uma empresa. Pronto falei. Beijos pro maridão!
É verdade, pode até rolar um "acordo de boca", mas se o empregado se sentir lesado, não vai pensar duas vezes pra colocar o patrão no p...ops... na justiça pra requerer seus direitos. rs
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