Primeiro tive vergonha alheia do teor da discussão, porque a classe média está sendo retratada como totalmente incapaz de auto-sobrevivência sem a ajuda de terceiros, segundo porque o buraco é bem mais embaixo.
Tomemos o exemplo da Alemanha, que é o meu terreno. Aqui as mulheres renunciam às suas carreiras, se quiserem, porque PODEM. Porque a política pública e social assim o permite. Porque elas podem ficar 3 anos de licença maternidade e voltarem pro emprego depois garantidamente. Porque só UM salário permite que se tenha um bom nível de vida e por isso, a mãe (ou o pai, como em muitos casos) escolhe educar de perto seus filhos. As escolas são públicas e boas e, principalmente, em tempo integral sem custo adicional, como no caso de Hamburgo. Quando a escola não é assim, existem lugares (Hort) onde paga-se um tanto, em relação ao seu salário, para deixar o rebento até o fim das horas de trabalho. A política familiar é, sem sombra de dúvidas, a meu ver, o mais próximo do ideal Dá pra comparar? O link está aqui.
O plano de saúde é obrigatório, mas não é o absurdo dos preços dos planos de saúde no Brasil que a classe média tem que pagar para não ficar à mercê da saúde pública brasileira que nem preciso comentar em que estado está. Com um só trabalhando não dá pra pagar mesmo.
Ou seja, não dá pra comparar alhos com bugalhos. O problema vai muito além de ser capaz de lavar seu próprio prato depois do jantar e fico P@*ˆ% quando leio o povo enchendo a boca pra dizer que "agora quero ver a classe média se ferrar". Helloo, e o aumento do número de desempregados? Ah, isso é papo furado de quem é contra a melhoria das condições de trabalho, todas as empregadas domésticas foram de repente alçadas a um patamar de santidade, onde fazem tudo certo e só os patrões perversos as exploram. Tá bom.
Que fique claro, EU nunca tive empregada, mas se tivesse, acho justo assinar a carteira, pagar-lhe até as férias, digo "até", porque eu mesma, como freelance autônoma não tenho ninguém que pague as minhas, nem agora, nem quando tinha consultório no Brasil. Não sei qual é o absurdo de a empregada trabalhar como autônoma.
Que fique claro, EU nunca tive empregada, mas se tivesse, acho justo assinar a carteira, pagar-lhe até as férias, digo "até", porque eu mesma, como freelance autônoma não tenho ninguém que pague as minhas, nem agora, nem quando tinha consultório no Brasil. Não sei qual é o absurdo de a empregada trabalhar como autônoma.
Acho lindo o discurso de que "é muito justo, as empregadas terem seus direitos de trabalhadoras reconhecido", mas seria bem mais lindo se todo mundo ganhasse rios de dinheiro e tivesse direito a férias anuais no Caribe. No Brasil a classe média não pode se dar ao luxo de só uma metade do casal trabalhar fora e a outra metade se ocupar de casa e filhos. Não é viável, nem se toda a família lavasse o tanque de roupas junta e todos os pratos das refeições. E quem vai ficar com a criança em casa quando fica doente? Ou quando são férias? Salvo se você for autônomo e administre sua própria agenda e também esteja preparado para ficar com menos dinheiro no bolso neste tempo, quero saber qual é a empresa que vai achar tudo bem a pessoa ficar em casa. Aqui além de ter-se o direito a tirar os dias de trabalho quando se tem filho doente em casa, pode-se tirar 30 dias úteis de férias, vejam bem, úteis, e que podem ser escolhidos aleatoriamente. Bem diferente do Brasil onde, por exemplo, no hospital onde eu trabalhei, era obrigada a tirar 30 dias corridos de uma tacada só, sem a possibilidade de parcelar.
Então não adianta dizer que o único problema é arregaçar as mangas das sinhazinhas. Sim, existe a cultura do serviço doméstico não ser valorizado, de ser algo inferior aos olhos dos brasileiros, existem os abusos dos dois lados, mas essa PEC, na minha opinião, da maneira que está sendo implantada, me parece muito mais uma medida populista de um governo que quer aparecer pras classes mais baixas, do que algo realmente de valor para a evolução e melhoria da sociedade brasileira.
Ainda li em outro momento, num blog desses por aí, uma empregada dizendo que se perdesse o emprego voltaria para o Piauí. Seria o reverso do êxodo nordestino para o sudeste da década de 70, com a diferença que nosso nordeste continua em situação periclitante e não sei em que isso seria bom.
Um monte de gente achando o máximo essa PEC e eu só digo: se tá ruim aqui, pior aí.
Um monte de gente achando o máximo essa PEC e eu só digo: se tá ruim aqui, pior aí.
8 comentários:
Só assim, tipo pra refrescar a minha memória e cair na real, assisti o JN de sábado. Gostaria tanto de que meus sogros pudessem assistir pra ver que o Brasil não é o que andam pintando nos comerciais da TV...Não se pode comparar nada quando realidades são completamente diferentes. Assino embaixo o seu post de hoje. Bjs
Realmente é uma segunda, ou melhor dizendo, terceira Lei Áurea (vide o Estatuto de Terra que levou muita gente do campo para as favelas das cidades). Assim como àquelas épocas o lado mais fraco é o que vai se f&^%$#uder.
Como tudo no Brasil, não se toma atitudes de maneira gradativa e conciliatória. Além do mais, espera-se que caia do céu a "vontade" das pessoas que ficarão desempregadas de estudar, como se elas não tivessem que alimentar suas famílias e mesmo assim como se houvesse escolas e as que tem fossem boas, para terem uma profissão mais digna (não que eu não ache digno, são os que apóiam esse tipo de aberração que dizem).
Agora eu gostaria de saber, se FGTS fosse tão bom para o trabalhador, por que só no Brasil (e talvez outros países insignificantes) tem essa aberração? É o pior investimento que existe! Só serve pra encher os cofres do governo que usa esse dinheiro para comprar votos.
Sou brasileiro, não desisto nunca... de ser burro!
MARAVILHOSO !!!!
Arrasou. A realidade no Brasil é diferente da europa. Parabéns ao pai da Juju e Laurinha disse tudo.
Acho que muita gente pensa assim também mas tem medo ou vergonha de colocar isso em palavras e o povo cair de pau em cima.
bjs
Ma, eu acho que tudo tem seus prós e contras né. Claro que você tem muita razão nesse post, primeiro pela maneira sensacionalista que a midia colocou, segundo pq ninguém se tornou santa e claro, um absurdo comparar dois mundos diferentes.
Mas por outro lado, havia muita exploracão da classe, abuso de poder mesmo. Mas nem vou entrar em detalhes, né? Pq se tem gente que paga uma babá para ser "mãe" quem dirá uma doméstica.
De fato, muitos estão desempregados, o que é uma pena.
Bjo
Tanto quanto há empregadores que abusam, há empregadas que passam o dia no telefone, não fazem o serviço direito, faltam e até furtam. E por causa dessas é que vai se generalizar? Porque há abusos por parte do patrões, colocar em risco os emprego de muitas empregadas também não faz sentido. Não se está punido os que abusam, está se punindo as empregadas com desemprego e membros da classe média que precisam. Esse é o problema de leis como essa que parecem estar se proliferando nos últimos tempos.
No final das contas essa lei vem para o governo arrecadar mais. Mesmo que um grande número de empregadas seja demitido, ainda haverá algumas e os patrões contribuirão com dinheiro extra para os cofres do governo do PT fazer seus mensalões e outras coisas das quais não sabemos.
Aliás, outro setor que ganhará muito é o de creches. Ficará mais fácil, prático e talvez até mais barato (ainda mais considerando que não ter aporrinhação não tem preço) colocar as crianças em creches ao invés de contratar babás.
O que o PT tem feito no governo é o que os ingleses fizeram por séculos, dividir e conquistar. Nos últimos dez anos o que se tem feito no Brasil é criar conflitos: negros contra brancos, pobres contra ricos, norte contra sul, gays contra heteros, domésticas contra classe média etc. Não se vê um movimento sequer no sentido de agregar. O país está se dividindo e essas divisões estão mascarando a situação econômica que é péssima. Quando o problema não puder mais ser escondido vai se escolher um bode-expiatório para culpar. Nos anos 30, na Alemanha, foram os judeus. Deu no que deu.
Bom, eu continuo achando que foi um marco na história jurídica do Brasil, algo que já deveria ter se consolidado há muitos e muitos anos. Porque aqui, empregada doméstica é "parte da família" - aquela parte da família que come os restos e dorme nos fundos, não tem a menor privacidade e ainda tem que usar aventalzinho e uniforme. É um resquício tão evidente da Casa Grande (dos tempos da escravatura) que eu tenho medo de falar "resquício". O discurso de que "ah, mas pelo menos antes ela tinha um emprego" é justamente o que impede que o Brasil avance... é esse pé para trás que insiste em ficar firme, que insiste em achar que as mudanças sociais sempre terão um impacto negativo. O impacto negativo pode vir sim, num primeiro momento. E aí as consequências - quaisquer que sejam - serão melhores do que a situação de milhares e milhares de mulheres e homens que estavam sujeitos, todos os dias, a uma realidade social que advém dos tempos da escravatura.
Não comparo e jamais o faria com a Alemanha ou com a Europa. O Brasil JAMAIS será Europa. Vivemos ainda um país coronelista, cuja base política continua sendo fincada em "favores" e cuja população não é esclarecida o suficiente para reivindicar os seus verdadeiros direitos. De qualquer forma, eu sou sempre a favor de qualquer coisa que elimine os privilégios de uma pequena classe em detrimento da ampliação dos direitos de outra muito maior. Não daria para esperar que a realidade brasileira fosse igual à alemã para querer um avanço desses. Se esperássemos... bom, quantos anos mesmo se passaram desde a escravidão? Pois é.
Oi Nicole! Oi Deby!
Concordo com você, Nicole, qundo vc diz que essas relações vêm e têm o ranço do nosso sistema colonial, realmente, e principalmente depois que a gente se distancia, o comportamento de senhor de engenho que a classe média passou a adotar me causava vergonha. Mas não acho que tenha sido essa evoluçao toda a mudança das leis trabalhistas para as domésticas. Não acho que tenha sido feito da maneira certa. Como li em outro texto e cito aqui "miraram na raposa e acertaram na ovelha".
Abraços!
Eu talvez seja muito limitado. Não consigo ver nenhuma melhora para ninguém, exceto na arrecadação do governo.
Aqueles que colocam suas empregadas na "senzala" e dão chibatadas vão continuar a fazê-lo. As empregadas que usam uniforme, continuarão a ter que usá-lo. O salário das que continuarem empregadas não vai aumentar. Somente os patrões terão aumento de despesas com os encargos.
O FGTS rende menos que a inflação, ou seja, em alguns anos não vale mais nada. Aqueles que investiram o FGTS na Petrobras perderam 50% nos últimos meses!
As empregadas não deveriam ter ganho esses "direitos", para o bem delas! Os outros trabalhadores é que deveriam tê-los perdido.
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