terça-feira, 24 de março de 2015

Conversa de gente grande

Bem, o entupimento foi resolvido, mas a máquina lava-louça deu seu último suspiro e agora estou esperando o rapaz vir consertar ou dar o veredito final de que só comprando outra. Até lá, muito esmalte descascado lavando a louça à mão, já me desacostumei a ficar sem máquina.

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Mas hoje resolvi vir contar sobre um assunto que já estou pra escrever há séculos. Senta que vem história.

Na Alemanha não há tabu para falar de nada com as crianças, alemães são bem práticos e não fazem rodeios com historinhas da carochinha na hora de abordar assuntos complexos com elas. Eu me tornei mãe aqui e apesar de carregar minha bagagem latina conservadora inerente e inevitável, acho que sou bem diferente daquela que eu seria se estivesse em território brasileiro. Além disso tem ainda o fato de que não dá pra criar a criança numa bolha, ela escuta na TV, no rádio, do amigo na escola sobre coisas que na minha infância nem era imaginável.

Então tudo começou com a Julia chegando em casa e me dizendo que eles iam começar a falar sobre o tema S na aula de ciência da escola. "Que tema S, Julia?" "Ai mamãe... S... de sexo, eu acho peinlich (constrangedor) falar disso, mamãaaae". Achei engraçado ela abaixar a voz pra falar como se aquilo fosse proibido, minha ficha demorou a cair!

Na Alemanha há um bimestre de educação sexual na quarta-série do ensino fundamental e eu já sabia disso. Há anos atrás quando nem sonhava em ser mãe, eu fiquei meio chocada, não vou negar, com a precocidade de se falar neste assunto com crianças de 9-10 anos. Hoje, se você me perguntar, eu achei foi ótimo!

Claro que quando eu estava grávida da Laura e a Julia tinha já 5 anos, várias perguntas pipocaram sobre como o bebê tinha entrado na barriga e na época eu expliquei com a parábola da sementinha e tal, que juntou a semente do papai com a da mamãe e fez um bebê e parei por ali, agradecendo internamente por ela ter ficado satisfeita sem querer saber efetivamente como as sementes tinham se encontrado. Procurei uns livros infantis, mas como eu falei, alemão não faz rodeios e até desenho com papai e mamãe se divertindo enquanto faziam um bebê apareciam nos livros e meu lado mãe latina não estava preparado pra liberar tanta informação naquele momento. Gente, 5 anos que ela tinha, também não precisa de tantos detalhes assim, vamos combinar, né.

E aí chegamos ao hoje de novo, à aula de educação sexual. Foi muito divertido ter esta experiência com a Julia. Todo dia ela chegava em casa e me contava alguma coisa e fiquei realmente espantada com o tanto de informação que ela adquiriu. As aulas abordaram as mudanças que ocorrem no corpo de meninos e meninas durante a puberdade, ciclo menstrual e como acontece a concepção. Ela é capaz de descrever desde o momento da ovulação até a concepção, fiquei impressionada. O mais engraçado foi um dia em pleno jantar, nós quatro juntos, ela vira e fala "Hoje eu aprendi na escola sobre Sammenerguss e Steifen". Eu dei uma leve engasgada nessa hora, mas o marido não entendeu de imediato e inocentemente perguntou o que era aquilo. Aí veio a Julia toda explicativa "Ah papai, é ejaculação e ereção, eu sei tudo já." Ótimo assunto pra hora do jantar vocês não acham?

Eu não tenho vergonha de conversar sobre nada com as meninas e maridão é totalmente relax também, não deixo nenhuma pergunta sem resposta e não gosto de fazer rodeios. O que também não quer dizer que eu vá entrar em detalhes na explicação. Procuro agir com naturalidade, mesmo tendo dificuldade pra achar o tom certo, às vezes, em explicar o suficiente sem exagerar na quantidade de informação.

Porque tem horas que o meio de campo embola e nem eu sei por onde sair. Ela já me perguntou o que era lesbisch, eu expliquei, mas aí vem aquelas perguntas mais capciosas, "Mas pode, mamãe?""Menina não tem que gostar de menino?". E aí você vai encher a cabecinha da criança com todas as variações de possibilidades de gêneros que existem no mundo moderno? Eu não vou ser falsa moralista e pagar aqui dizendo que acho simples. Não acho.

7 comentários:

* Mel * disse...

Só para causar e dar uma de CLICHES EXISTEM.

Eu vim para a Alemanha e entrei direto na 4a série, entao tive essas aulinhas também.

Mas o que mais me lembro da aula e ficou na minha memória até hoje, foi o desenho dos adultos pelados com seus pelos pubianos, nas axilas e pernas etc etc, e a professora nos falando que raspar pelos (das axilas por exemplo) era ungesund pois estavam lá para proteger o corpo. Fato, true story, aconteceu comigo damals em 1991/92.

De fato naquela época o cliche era bem forte e real. Queria saber se o desenho da mulher hoje em dia é depilado ou nao hahhahaha.

Engracado que a gente como adulto se choca com os detalhes mas eu mesma nem lembro do conteudo da aula sexual. Tipo aprendemos e passou. Nao chocou, nao me deixou nem mais nem menos sexualizada naquela idade.

Pensando hoje em dia fico mais horrorizada hahahaha.

rose disse...

É isso aí, outra cultura e outros tempos.

Bjs

Eliana disse...

Sabe que uma vez eu me deparei com um livrinho, que era alemão, com tudo completo. Gente, nem acreditei que era para o público infantil. Ahhh como a gente é tonto, né? Coisa mais natural e humana, porque do contrário ninguém estaria aqui. Ato praticado com amor, ou nem sempre, mas o sexo é algo que deveria ser enxergado de forma mais natural e "sem vergonha". Mas gente grande estraga tudo mesmo. O papo pode até ser de gente grande, mas são os pequenos que tiram de letra.
Agora eu também acho que 9 anos seja um pouco cedo, mas enfim, hoje do jeito que as coisas estão, é melhor mesmo explicar tudo, numa boa, sem traumas, sem rodeios...apesar que, pensando bem, a humanidade nem mais precisa de sexo, né? Afinal já fazem bebê de proveta há séculos! Ui...estamos fora de moda??? hahaha

Ma disse...

Mel,

Nas apostilas que a Julia trouxe pra casa tinha desenhos de menina e menino mostrando as diferenças do corpo, mas o quesito depilação não foi comentado :) Em compensação tinham duas figuras com as partes anatômicas baixas bem grandes pra elas escreverem os nomes de cada detalhe.
Bjs

Ma disse...

Mel,

Nas apostilas que a Julia trouxe pra casa tinha desenhos de menina e menino mostrando as diferenças do corpo, mas o quesito depilação não foi comentado :) Em compensação tinham duas figuras com as partes anatômicas baixas bem grandes pra elas escreverem os nomes de cada detalhe.
Bjs

Ma disse...

Eliana,

Tem cada livrinho infantil que é de arrepiar os cabelos!
Bjs

Maman B... et ses petites crapules disse...

Ma,
Minha filha de 7 anos perguntou p/ o pai se ele era gay e ele respondeu que nao.
Entao lhe perguntei se ela sabia "gay"
Claro, sao pessoas do mesmo sexo que se amam, mas nao precisam necessariamene fazerem bebes e depois ela descreveu tudo, mas agimos naturalmente. Aqui na Suiça tb começam eduCaçao sexual na 4° serie! bjs