Hoje não vamos a aula de natação, combinei há duas semanas atrás com a mãe de uma amiguinha da sala da Julia pra ela ir brincar na casa da garota. A mãe, alemã, queria tanto que as duas se encontrassem que, não satisfeita de me encontrar todo dia na entrada e na saída da escola, ligou aqui pra casa pra eu marcar na minha agenda o dia de hoje. Pois é, somos pop. A Julia eu até entendo, ela é docinha e geralmente todas as mães querem que ela seja amiga dos filhos, mas o meu atrativo eu sei que é a fascinação pelo exótico. Essa mãe quer muito ser minha amiga, sabe quando a pessoa puxa papo e pergunta de um tudo pra produzir conversação? E um dia caiu a ficha dela de que eu era brasileira DE VERDADE (me senti um espécime). Nem sei qual era o assunto da conversa, comentei que minha mãe e minha sogra moravam no Brasil, que a família toda estava lá, no que ela arregala os olhos (que já são meio esbugalhados, desconfio que ela tenha hipertireoidismo) e fala "Ha, mas então você é uma brasileira de verdade!!!!", assim bem exclamativa. E eu fiquei pensando o que ela tinha achado que eu era antes.
Não há como negar a atração que produzimos, segunda-feira na minha aula, conversando com duas companheiras de curso no intervalo, uma me pergunta " Você é de onde no Brasil?", "Do Rio de Janeiro", "Ah, então você sabe dançar". Pensei, respondo que sei descer na boquinha da garrafa ou omito? Omiti. "E há quanto tempo você está aqui?" Essa agora ficou complicada de responder. Quando estou sem saco arredondo a conta pra oito anos, quando estou de bom humor digo "quase 8 anos, mas dois deles foram na Escócia". "Nossa, mas você fala alemão tão bem, dá pra entender tudo". Minha vontade foi responder "Você também".
Isso é outra coisa que desperta MUITO o interesse deles aqui, o fato de eu falar alemão bem no que eles consideram pouco tempo. O pediatra da Julia invariavelmente em todas as consultas me pergunta se eu já sabia falar alemão antes de vir pra cá. Porque eles estão acostumados com outro tipo de estrangeiro, aquele que vem pra cá pra ser força de trabalho braçal, traz a família, mora aqui há 30 anos e ninguém aprende alemão, quando muito só aquele alemão meia boca de rua que mal conjuga os verbos, quiça sabe as declinações. E com esses o preconceito é muito grande. Na verdade, os alemães tentam empurrar pra eles a culpa de todos os problemas da Alemanha atualmente, o que também não é verdade, o buraco é bem mais embaixo. Mas a má vontade em relação a esses estrangeiros é descarada.
Eu sei que já tinha que estar acostumada com esses comentários e exclamações, mas sempre acho engraçado. A única coisa que eu me arrependo é de ter três sobrenomes. Se eu soubesse que um dia ia morar aqui, teria deixado só um depois do casamento, minha vida seria bem mais fácil do que ter que soletrar toda vez essa exoticidade explícita.
3 comentários:
Pois é. Mas, é bom que vc acha engraçado e não se ofende. POr não "fazer parte" do lado dos estrangeiros que falam o "alemão de rua". Esses, "os culpados" (como pensam os mais retardadinhos alemães, né?)
Ela disse que vc é brasileira de verdade, pq não só nasceu lá, como seus antecendentes tb. De sangue e de terra. rsrs Eu acho.
Bjs!
Eve, os estrangeiros que não aprendem o alemão são realmente um problema sério social aqui na Alemanha, e vc sabe que eu estou me referindo principalmente aos turcos e seus descendentes. Mas todo mundo é estrangeiro e entra no mesmo saco, integrados ou não, sabendo falar ou não e eu realmente não gosto dessa generalização. Eu acho que os alemães têm razão de reclamarem que as pessoas não aprendem, porque a maioria se encosta e se acomoda no sistema. mas daí a dizer que a Alemanha tá em crise por causa disso já acho demais, vai ver a quantidade de alemães encostados pela Hartz IV. Complicado. Bjs
Quando estive na Alemanha pela 1ª vez, os pais de uma das minhas amigas fizeram um jantar para me apresentar aos amigos. Primeiro o choque: "você é branca!". Depois o choque por ouvirem o meu alemão (um lixo, mas sai qualquer coisa). Perguntavam sempre porquê aprendi alemão e onde. Quando disse que foi no Goethe, choque total 2. Há Goethe no Rio????? Depois um cara me mostrou umas fotos de gente que mora em barcos em Manaus e perguntou se a minha casa era daquele jeito. Quase perguntei se eles queriam um show super freak com a brazuca :)
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